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EU E A BOLA

Os pífios chutes das minhas primeiras peladas desencorajaram o craque dos meus delírios infanto-juvenis. Nos campinhos da Porto Alegre dos anos 40, 50, bem que eu tentei, rodando a Cidade Baixa, a Baronesa, o Gasômetro e rondando o Marcelino, o Telefônica, sonhando com o Vila Federal, que ainda existe – espero! – até que, extrema audácia, tentei o Internacional.

Podem crer. Categoria de base chamava-se filhote, e era quase exclusivamente recreativo, dirigido pelo maior de todos os animadores, Vicente Rao, cuja assinatura ainda ostento na primeira carteirinha. Para não atrapalhar nos Eucaliptos, treinava-se – vá lá! – na Chácara das Camélias, do Nacional, em times que ostentavam, orgulhosamente, o nome de cada um dos craques do Rolo Compressor, o melhor dos quais, sonho inatingível, carregava o do zagueiro Alfeu.

Ali mesmo, mais tarde, começaram a surgir as verdadeiras categorias de base, sob o comando de Jofre Funchal, misto de treinador, tipógrafo do velho Correio do Povo e folclórico torcedor. Definidos como infantis, infanto-juvenis e juvenis surgiam os que, esses sim, passavam a treinar para craque, entre os quais Falcão. Posso dizer que jogamos no mesmo time, eu vinte anos antes.

Com os primeiros pífios chutes, logo aprendi uma coisa: jogador ruim aprende. Enquanto o craque potencial contempla o próprio umbigo, o ruim de bola olha para os lados, pensa e percebe que não poderá depender do próprio talento, aliás inexistente. Precisa dos outros, e assim nasce a idéia do futebol coletivo, que, quando consegue submeter os craques, torna-se imbatível.

Alguns ruins de bola não se conformam, invejam o craque e insistem num falso craquismo que os levará diretamente das categorias de base para o departamento de ex-atletas. Outros se conformam e vão ser esforçados vencedores, até ricos e famosos, com brilhantes carreiras feitas com base na força e no caráter, até que, para a própria surpresa, ganham o status de craque. Outros se conformam ainda mais e largam a bola mais cedo, antes que ela os abandone. Foi o meu caso. Desisti da carreira para me dedicar a uma tarefa mais fácil, mudar o mundo. Entrei no jornal do Partidão para fazer o que eu sabia: jornal. Aí, se não fui craque, não fiz feio.

Mas antes aprendi que, não tendo inspiração, meu lugar era na defesa, com a tarefa de impedir os outros de jogar. Não era difícil: era fácil ou impossível. Fácil quando o marcado era apenas bom de bola, nada que uma chegada não resolvesse, ou era um igual não conformado, querendo ser o que não podia. Impossível quando vinha pela frente quem tinha tudo, talento e força, aplicação e técnica, inspiração e transpiração.
Aí colhi minha segunda lição no futebol: ataque se inspira, defesa se organiza. Não fica proibido o zagueiro inspirado – gamarras e galvões – mas sem eles também há vida inteligente na defesa. O maior zagueiro que vi jogar – Figueroa – não foi o melhor no sentido técnico (o melhor não passou do Vila) mas foi insuperável na essência do seu ofício: impedir que metessem a bola naquele retângulo às suas costas.

Aprendi também algo surpreendente, que só fui confessar mais tarde: minha atuação crescia enormemente depois do jogo. Eu explicava melhor do que os outros, ou pelo menos melhor do que a maioria. Explicava o jogo e me explicava, começando então a praticar por instinto um ensinamento que depois recolhi em Bernard Shaw: quem sabe, faz; quem não sabe, ensina.

Fui ensinar futebol, virei analista, comentarista de rádio, jornal e televisão. Não foi de todo fácil, a competição era dura com as vozes radiofônicas de uns ou o nome rutilante dos ex-craques no intervalo de suas carreiras de treinador. Outra lição: em vez de complicadas táticas, a psicologia, espécie de exercício ilegal da medicina: os times passam a ser determinados ou apáticos, os jogadores dedicados ou displicentes, os treinadores audaciosos ou timoratos, os dirigentes escorçados ou oportunistas, com a vantagem que esse método de análise serve para qualquer partida ou, melhor ainda, para qualquer modalidade esportiva, do polo aquático ao xadrez. Acho que fiz escola.

Por fim veio a parte mais difícil do meu aprendizado: fui treinar os treinadores, isto é, ser dirigente de futebol. Eles pensam que te treinam, mas é você que os treina: dá idéias fingindo que são deles, assume tudo que dá errado e atribui-lhes tudo o que dá certo, explica as burradas deles pelo azar ou pela arbitragem e, ainda assim, quando dá errado, troca e começa tudo de novo.

Enquanto isso, eles entram no jogo, achando que você é um torcedor que só quer a vitória ou é um cartola ambicioso que só quer a vitória. É quando todos se entendem, cada um cresce na sua: o craque, o esforçado, o treinador, o dirigente, todos dedicados a servir o mais humilde monarca moderno, que é o torcedor. A partir dessa síntese é que surgem os grandes times, se houver mais dois ingredientes: tempo e dinheiro em doses razoáveis. Só.

Foi esse ponto de maturação que o Internacional alcançou recentemente com Fernando Carvalho e Abel (e ainda tenta com Tite), como antes Fábio Koff construíra com Felipão, para botar em campo times organizados e competitivos, capazes de derrubar milionárias constelações de craques e deixá-las no caminho como cruzes à beira da estrada, hamburgos ou barcelonas, sacrificados por adversários modestos praticantes de uma lição de vida: ataque se inspira, defesa se organiza.
Quando dá certo, todos se consagram. Até os ruins de bola.

Ibsen Pinheiro

Agosto/2009
 

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